Casquinha de Bloomsday | Ulysses

bloomsday03

Cartaz comemorativo do Bloomsday de 2003

O Bloomsday, 16 de junho, é a comemoração da data na qual, em 1904,  ocorrem os eventos relatados em Ulysses, romance de  James Joyce cujo herói se chama Leopold Bloom. Em Dublin, na Irlanda, as comemorações do Bloomsday ocorrem durante uma semana inteira. No dia 16, é tradicional vestir-se como personagens do livro, visitar os locais onde as cenas acontecem, lendo e participando de leituras, caminhadas e representações ligadas ao livro.

IH211825© Richard T.  Nowitz/CORBIS

Dedicamos a casquinha de hoje não somente a James Joyce mas também a Leopold Bloom.

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Ulisses

James Joyce

(Tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro)

Rio de Janeiro: Objetiva, 2005, p. 64-65.

***

O Sr. Leopold Bloom comia com prazer os órgãos internos de aves e de outros animais. Ele gostava de uma sopa grossa de miúdos de aves, moela com nozes, um coração recheado assado, fatias de fígado fritas à milanesa, ovas de bacalhau tostadas. Mais do que tudo ele gostava de rins de carneiro grelhados que davam ao seu paladar um sabor refinado de urina ligeiramente perfumada.

Rins estavam em sua cabeça enquanto ele se movia mansamente pela cozinha, arrumando as coisas dela na bandeja corcovada. Havia na cozinha uma luz e um ar gélidos mas lá fora se estendia em toda parte uma suave manhã de verão. Fazia com que ele se sentisse um tanto faminto.

Os carvões estavam avermelhados.

Uma outra fatia de pão com manteiga: três, quatro: certo. Ela não gostava de seu prato cheio. Tudo bem. Ele deu as costas para a bandeja, levantou a chaleira da chapa de ferro de lareira e a pôs de lado no fogo. Ela ficou ali sentada, apática e acocorada, com o bico projetado para fora. Uma xícara de chá logo. Bom. Boca seca.

A gata andou toda esticada com a cauda erguida em volta da uma das pernas da mesa.

– Minhau.

– Ah, você está aí – disse o Sr. Bloom, se virando de costas para o fogo. A gata respondeu miando e toda esticada se aproximou rastejando miando novamente em volta de uma das pernas da mesa. Exatamente do jeito que ela rasteja em cima de minha escrivaninha. Ronron. Coce minha cabeça. Ron.

O Sr. Bloom observou, gentilmente inquisitivo, a forma negra flexível. Graciosa de ver: o brilho de seu pêlo lustroso, o botão branco sob a base de sua cauda, os olhos verdes cintilantes. Ele se inclinou para ela, com as mãos apoiadas nos joelhos.

– Leite para a gatinha – disse ele.

– Minhau! – Gritou ela.

Eles as chamam de tolas. Elas entendem o que dizemos melhor do que nós a entendemos. Ela entende tudo que quer. Vingativa também. Cruel. A natureza dela. Curioso os camundongos não chiam nunca. Parecem gostar disso. Eu me pergunto o que é que eu pareço para ela. Altura de uma torre? Não, ela pode pular por cima de mim.

– Medo dos pintos ela tem – disse ele zombeteiramente. – Medo dos chukchuks. Eu nunca vi uma gatinha tão tola como essa gatinha.

– Miinhau! – gritou alto a gata.

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